
As grandes distorções da vida em sociedade raramente começam de forma evidente. Surgem de pequenas concessões, de silêncios convenientes e de justificativas aparentemente razoáveis para aquilo que, no íntimo, sabemos não estar correto.

Poucas pessoas escolhem conscientemente abandonar seus princípios; o que acontece, com mais frequência, é que, aos poucos, permitimos que circunstâncias, interesses ou paixões relativizem aquilo que antes considerávamos inegociável — e é nesse processo quase imperceptível que a consciência começa a se acostumar com aquilo que deveria questionar.
Helena Petrovna Blavatsky escreveu uma reflexão de impressionante profundidade: “É excelente impedir um homem injusto; mas, se isso não for possível, é excelente não agir em cumplicidade com ele.” Nem sempre teremos força para impedir a injustiça, mas sempre teremos a liberdade de decidir se participaremos dela ou se lhe emprestaremos a credibilidade da nossa própria consciência.
O homem injusto raramente se sustenta apenas por sua própria vontade; necessita da colaboração daqueles que acreditam estar servindo a uma causa maior. Por isso a finalidade de uma ação não purifica os meios: quando o justo se associa ao injusto imaginando produzir algum benefício, acaba oferecendo aquilo de que o injusto mais necessita — legitimidade.
Existe uma diferença profunda entre ajudar uma pessoa e legitimar suas práticas: a verdadeira solidariedade busca restaurar quem errou; a cumplicidade apenas fortalece seus desvios.
Sem perceber, o homem justo pode tornar-se instrumento daquilo que sempre combateu. Essa dinâmica aparece com clareza na vida pública: é comum condenar energicamente a corrupção quando ela é atribuída ao adversário e, diante da mesma suspeita sobre o candidato de nossa preferência, recorrer à racionalização — “todos fazem isso”, “o outro fez pior”, “é o menos pior”.
Esses mecanismos não mudam os fatos; mudam apenas a forma como escolhemos enxergá-los, e a consciência deixa de servir à verdade para servir às nossas preferências. Ninguém pode afirmar, com certeza, qual candidato será realmente “o menos pior” — essa conclusão repousa sobre expectativas e simpatias, nunca sobre certezas. O verdadeiro perigo não está na dificuldade da escolha, mas na facilidade com que transformamos essa incerteza em justificativa para relativizar princípios.
Quando aceitamos em nosso candidato aquilo que condenaríamos no adversário, deixamos de aplicar um critério moral universal e passamos a defender pessoas em vez de valores. A neurociência política oferece um nome preciso para esse fenômeno: cognição protetora da identidade.
É quando nossa inteligência, em vez de buscar a verdade, passa a trabalhar para proteger aquilo que somos ou acreditamos ser, filtrando os fatos, reinterpretando-os e até distorcendo-os para preservar a identidade partidária à qual nos vinculamos.
Diante da corrupção do adversário, reagimos com indignação e exigimos provas; diante da mesma falta cometida por quem comunga de nossas cores, o ceticismo se torna seletivo, os fatos são minimizados e a narrativa é reescrita para acomodar a cumplicidade.
Não é a evidência que muda; é a disposição para enxergá-la. Por trás desse mecanismo está algo mais antigo do que qualquer partido: a evolução nos programou para o grupo, não para a verdade. É assim que duas apurações de gravidade semelhante podem tramitar ao mesmo tempo, envolvendo lados opostos do espectro político, sem que o debate público se eleve à altura do problema — reduzindo-se, em vez disso, a uma disputa primitiva sobre qual lado “é menos pior”.
A polarização não nos torna mais atentos à gravidade dos fatos; torna-nos apenas mais eficientes em justificar o injustificável. A vida pública raramente oferece escolhas perfeitas, e nenhuma democracia é composta por candidatos impecáveis.
Mas reconhecer essa realidade não autoriza um salvo-conduto moral: se um comportamento é indigno quando praticado pelo adversário, permanece igualmente indigno quando praticado por quem simpatizamos.
Não é necessário participar diretamente de um ato ímprobo para fortalecê-lo — basta oferecer apoio incondicional a quem demonstra desprezo pelos princípios éticos, desde que pertença ao grupo com o qual nos identificamos.
A polarização transforma líderes em ídolos, partidos em torcidas e convicções em identidades; pouco a pouco, a verdade deixa de ser procurada e passa a ser escolhida conforme o lado ao qual pertencemos. Um país não se renova apenas substituindo um governante por outro mais conveniente.
As mudanças duradouras começam quando os cidadãos recusam toda forma de cumplicidade, independentemente da ideologia ou da simpatia pessoal — e isso vale para a política, as amizades, a família e o ambiente profissional, onde a convivência com pequenas concessões tende a anestesiar o senso moral.
A verdadeira integridade não se mede apenas pelas boas ações que realizamos, mas também pelas alianças que recusamos estabelecer. Nem toda oportunidade merece ser aproveitada. Nem toda causa merece nosso apoio. Nem toda companhia preserva a dignidade da consciência. No fim, impedir a injustiça continuará sendo uma virtude admirável.
Mas, quando isso escapar ao nosso alcance, ainda restará uma decisão que pertence a cada um de nós: recusar qualquer forma de cumplicidade. Afastar-se do injusto não significa odiá-lo, mas recusar-se a legitimar suas práticas.
Afinal, calar-se diante do que se sabe injusto também é uma forma de participar dele.
André Luis de Faria Santos
Articulista MR Notícias
